O Carnaval de Salvador de 2026 representou um avanço na forma como grandes eventos podem ser planejados e executados a partir de critérios de sustentabilidade. Reconhecido como o maior carnaval de trios elétricos do mundo, o evento foi estruturado como uma plataforma de integração entre cultura, desenvolvimento econômico e responsabilidade socioambiental, alinhada aos princípios ESG e às diretrizes da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas.
A escala do evento e seus desafios urbanos
A edição de 2026 reuniu mais de 10 milhões de foliões, cerca de 1,2 milhão de turistas, 1.200 atrações e oito circuitos oficiais distribuídos ao longo de aproximadamente 30 quilômetros da cidade.
Essa magnitude transforma o Carnaval em uma operação urbana complexa, com impactos diretos na geração de resíduos, mobilidade, consumo de energia, emissões atmosféricas e uso intensivo de infraestrutura pública.
Além do impacto cultural, o evento movimentou cerca de R$ 2 bilhões e gerou mais de 250 mil empregos diretos e indiretos, consolidando-se como um dos principais motores econômicos da capital baiana.
O papel da SECIS na estratégia de sustentabilidade
A coordenação das ações sustentáveis esteve sob responsabilidade da Secretaria Municipal de Sustentabilidade, Resiliência, Bem-Estar e Proteção Animal (SECIS), criada para desenvolver e integrar políticas públicas voltadas à ação climática, inovação urbana e inclusão socioambiental.
Durante o Carnaval, a atuação da SECIS estruturou o evento a partir de quatro eixos principais:
- Planejamento intersetorial entre órgãos municipais;
- Implementação de práticas ESG na operação do evento;
- Monitoramento por indicadores ambientais, sociais e econômicos;
- Educação ambiental e engajamento da população.
Mais de 30 órgãos públicos participaram dessa governança integrada, demonstrando um modelo colaborativo de gestão urbana aplicado a eventos de grande escala.
Economia circular e gestão de resíduos
Um dos principais resultados ambientais foi a coleta de 225 toneladas de materiais recicláveis ao longo do período carnavalesco.
A operação envolveu 16 cooperativas de catadores, promovendo inclusão produtiva e geração de aproximadamente R$ 2,5 milhões em renda direta, reforçando o papel social da economia circular.
Entre as medidas adotadas destacaram-se:
- Fortalecimento da coleta seletiva nos circuitos;
- Incentivo à redução de plásticos descartáveis;
- Reaproveitamento de estruturas e materiais cenográficos;
- Uso integral de iluminação LED para maior eficiência energética;
- Monitoramento da qualidade do ar e emissões por meio do Observatório do Clima.
Inclusão social como parte da sustentabilidade
A estratégia também incorporou políticas de proteção social e valorização do trabalho informal. Programas municipais ofereceram acolhimento a crianças em situação de vulnerabilidade, acesso democrático aos espaços da festa e suporte a trabalhadores envolvidos na cadeia do evento.
Durante o Carnaval:
- 549 crianças foram atendidas pelo programa Salvador Acolhe;
- 300 vagas diárias foram disponibilizadas em arquibancadas sociais;
- trabalhadores e catadores receberam apoio estrutural e logístico.
Um modelo de “cidade temporária” planejada
A realização do evento exigiu uma operação equivalente à criação de uma cidade provisória, mobilizando mais de 30 mil profissionais em áreas como limpeza urbana, saúde, segurança, mobilidade e gestão ambiental.
Ferramentas de inteligência territorial e planejamento digital permitiram integrar dados operacionais em tempo real, ampliando a eficiência logística e a capacidade de resposta da administração pública.
Cultura e sustentabilidade como vetores complementares
Ao mesmo tempo em que celebrou marcos históricos como os 75 anos do trio elétrico e os 40 anos da Axé Music, o Carnaval de 2026 demonstrou que tradição cultural pode coexistir com inovação na gestão ambiental e urbana.
A experiência posiciona o evento como um laboratório de políticas públicas, no qual soluções testadas durante a festa podem ser adaptadas à rotina da cidade ao longo do ano.
Um caminho para eventos mais sustentáveis
O modelo adotado por Salvador evidencia que grandes eventos podem funcionar como catalisadores de transformação, desde que planejados com integração institucional, metas claras e monitoramento de resultados.
Ao alinhar desenvolvimento econômico, inclusão social e responsabilidade ambiental, o Carnaval de Salvador 2026 apresenta um exemplo de como celebrações de massa podem contribuir para estratégias urbanas mais resilientes e sustentáveis.